Padoca móvel

CONFIRA NOSSO TRABALHO NA FLIP 2016

A Deli também gosta muito de desafios, do improvável, do inusitado. Porque

a Deli é essencialmente uma célula de planejamento e acreditamos que nada

é impossível, se for bem estudado. Por isso embarcamos nos mais diferentes

formatos de eventos, porque não importa a ordem dos fatores que você nos

proponha, o resultado deverá ser sempre o mesmo, a comida no seu melhor

estado. E assim surgiu a Padoca sobre rodas, uma padaria móvel para levar

até você o prazer de sentir o cheiro de pão fresquinho saindo do forno.

– Marcha, cinco cafés, dois cappuccinos e um chocolate! Segue, quatro pães de queijo, dois folhados de chocolate e um de pistache! Segue, três sopas, dois pratos do dia e um Burger! Ok?

– Ok!

A imagem descongelava à resposta coletiva do “ok” e voltávamos a dançar em velocidade. O dia inteiro lutando contra o tempo, no transe, na multiplicação de pensamentos simultâneos. – Focaccia em 5! O que são cinco minutos em uma cozinha? O tempo que leva para grelhar o hambúrguer? Foram 1.200 hambúrgueres em 5 dias, ao longo de 12 horas, seria mais de um hambúrguer por minuto, se fosse matemática. Mas é cozinha e a conta só tende a fechar ao passo da sincronia.

Conforme o Sol se inclinava o mesmo intervalo de tempo passava a abranger cada vez mais e mais produtos, misto quente, chocolate, palmier, pão de queijo, suco natural, cookie, brigadeiro, tem canudo? Água com ou sem gás? Pode ser sem gelo? O meu com espuma de leite! Média bem escura! Com um pinguinho de leite! Mais de onze mil itens vendidos.

De repente cinco minutos viram tempo para um respiro bem longe dali. O clima estava ótimo, a paisagem era linda, Paraty continua um ‘desbunde’. Em um piscar de olhos, uma viagem para o passado, uma história de vida para se dividir com os colegas no tempo de um cigarro. Memórias de um tempo em que realizar uma receita ainda era um desafio. Técnica parecia ser a única coisa que nos faltava. Repetição, treino, disciplina, trabalho atrás de trabalho. Quinze horas na ativa, seis dias na semana, oito meses seguidos, não, dez, doze anos! Imersos. Buscando, acreditando, se entregando. E hoje, qual é o desafio?

– Saindo prato do dia! Ok!

Apaga o cigarro, volta correndo e finaliza os cafés, mas já sem tanto alvoroço, quase no automático, no silêncio, na inércia daquelas memórias. Aqui se chama contemplação, é um lugar distante da realidade onde a reflexão encontra fôlego para aguentar o desgaste físico. Fomos trazidos pela cozinha, iludidos com a vaga ideia de que ela queria nos ensinar a dominar o fogo, quando se tratava sempre de compreender o sentido da vida, o tempo.

Fazer um pão é, acima de tudo, praticar essa contemplação. O pão é a fotografia exata do ambiente e do momento em que foi feito. Se pudéssemos emitir um relatório químico e físico de sua fermentação desde o momento em que a farinha se encontra com a água, teríamos dados tão precisos quanto a temperatura da mão de quem manipulou aquela massa. E se fizéssemos um gráfico exclusivo da temperatura dessa pessoa ao longo do mês, poderíamos até concluir seu estado emocional naquele instante. Mas a contemplação vai além disso, fazer pão é conseguir se distanciar da medida usual de tempo marcada em segundos, e ampliar o foco do ponto de vista para uma mesma imagem mental composta de passado, presente e futuro. Essa amplitude é a verdadeira paz. E o pão nos deixa em paz na medida em que compartilha sua vastidão no lento e prazeroso processo de execução.

A partir do momento em que eu enxergo a cozinha toda como uma máquina de dissecar o tempo e me vejo como uma analista dele, percebo que descobri a chave da minha existência. A resposta está clara, suas marcas estão estampadas na minha cara e essa cara agora vejo refletida no inox.